Presunto a Monte

Maio 27 2009

Quando eu tinha catorze anos o meu pai já dizia: “carreira a seguir é de médico”. A minha avó concordava: “Vamos ter doutor na família”. Eu costumava olhar para o meu irmão que queria ser engenheiro e pensava que eu também queria ser engenheiro. O meu pai disse que não: “dinheiro está na medicina” - vaticinou. E nunca mais pensei nisso. Fiz o secundário inconscientemente e quando chegou a hora lá escolhi jornalismo. O meu pai horrorizado: “Ciências da Comunicação? Mas isso dá dinheiro?”.


Sempre me surpreendeu a quantidade de jovens em Portugal que querem ser médicos. Eu sempre ouvi que os médicos só dão sem pedir de volta, os médicos são honrados. O nosso Eça até disse que em Portugal, país cuja ocupação nacional parece ser estar doente, o serviço mais patriótico que se podia desempenhar era ser médico. Mas eu olho à minha volta e não vejo jovens bem-intencionados, altruístas e ambiciosos. Eu vejo indiferença, vidas sem nexo e jovens querem qualquer coisa que os defina.

A glorificação da medicina em Portugal é sem dúvida, notável. Todos os anos, existe sempre a polémica das médias dos cursos de medicina. Das vagas. Dos cursos no estrangeiro. Milhares de jovens reclamam que não podem seguir o seu sonho, a sua vocação. Eu acho fantástico existir tantas almas caridosas neste país. Acho mesmo. Pessoas incansáveis, que querem salvar outras pessoas. Com tanta gente a querer salvar os outros eu pergunto: E quem vai salvá-los deles próprios?

Quando eu visitei a minha avó no Hospital, a minha mãe ficou escandalizada por eu não agradecer ao médico quando ele veio trazer as boas-novas da recuperação da minha avó: “Isso são modos? Agradece lá ao senhor doutor”. Eu, envergonhado, esbocei um “obrigado” quase inaudível e a cara do médico encheu-se de satisfação, bombeada por uma glória de dimensões magnânimas.
Foi aí que eu pensei. Porque haveria eu de agradecer ao médico? Ele saiu do seu caminho para salvar a minha avó? Ele impôs algum esforço extra, sacrificando o seu próprio bem-estar para salvar a minha avó? Não.

Eu nunca acordei à uma da manhã para agradecer ao senhor do lixo por fazer o seu trabalho. E com a quantidade de lixo que se produz neste país eu acho que os senhores do lixo deviam começar a receber ordenados de jogador de futebol.
Deviam ser elevado a seres etéreos, como as Ninfas do Tejo. Deviam ser imortalizados no próximo livro do Saramago, “Ensaio sobre o Lixo”. O Carlos da Maia não devia ter sido médico. Ele devia ter sido homem do lixo. Na capa das revistas cor-de-rosa eu não quero ver o Cristiano Ronaldo. Eu quero ver o senhor Manel, homem do lixo orgulhoso, que luta bravamente pelos subúrbios e arredores, recolhendo o lixo sem piedade no seu uniforme da câmara. O uniforme devia até ter patrocínio. Da Sonae, da PT, e do Magalhães. Quem devia ajudar na procura da Maddie não devia ser o Beckham. Devia ser o Sr. Manel. Peço desculpa, o Exmo. Sr. Dr. Manuel. Quando o Presidente Kennedy  fez aniversário, a Marilyn Monroe cantou-lhe os parabéns. Olha, quando o Sr. Manuel fizer aniversário eu quero ver a Mariza a cantar-lhe os parabéns num Estádio do Jamor lotado. Eu quero ver cartazes a dizer: “Sr. Manuel – Dá-me a tua camisola. Lavada”.

No meio disto tudo eu só consigo pensar que falhei. Como eu falhei. Na minha ingenuidade juvenil, num breve momento de desespero eu escolhi jornalismo como profissão. Devia ter sido homem do lixo.

 

publicado por Leandro às 23:40

O problema não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal - Jorge de Sena
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