Presunto a Monte

Maio 26 2009

Mudança. Essa é a palavra que mais se ouve nos últimos tempos. Enquanto o Barack Obama andou aí, por todo o mundo, a divulgar a sua proposta da mudança, o único local onde essa mensagem parece ter não ter chegado foi em Portugal. “Sim, nós podemos” - dizia ele. Ao que o sua massa devota respondia: “Nós queremos mudança”. No mundo todo, milhões de vozes gritaram, velhinhas choraram, amigos comemoraram, pessoas casaram-se e crianças nasceram. Tudo em sinal de êxtase puro. Tudo vai mudar. Tudo vai ser diferente. Tudo vai ser melhor.

Aqui neste cantinho chamado Portugal, tudo é diferente. Mudam-se os tempos, mas a vontade continua inabalável, constante e perfeita. Tudo está bem como deve estar. Quem tentar mudar alguma coisa deve ser crucificado. Há que ser concedido que nem toda a mudança é boa. E temos que admitir que nem toda mudança é má. Mas em terras lusitanas mudança não é uma possibilidade.

Avaliação de professores. Cem mil protestam em Lisboa. Mais cinquenta mil no Porto protestam pela mesma razão. Vinte mil aqui, dez mil lá e parece que todo o país protesta.
A crise económica. Fábricas fecham. Dez mil protestam em Braga, cinco mil em Águeda, e mais doze mil em Aveiro. São mais que as formigas.
Portugal desqualifica-se do Euro. Nove milhões novecentos e noventa e nove mil protestam. São mais que as mães. O primeiro-ministro anuncia a criação de dez mil empregos. Dez mil protestam.

Todos querem que tudo fique como está. Todos querem ter o mesmo trabalho durante cinquenta anos. Ninguém quer um trabalho que exija demasiado. Ninguém quer levantar o traseiro do sofá. Às tantas vemos a ociosidade como uma virtude. Talvez gostamos tanto da ociosidade que protestamos e lutamos por ela. Essa ociosidade vem pelos tempos. Fomos num tempo longínquo, um povo rebelde e lutador. Lutámos pela independência. Descobrimos o mundo. Navegamos por sete mil mares. Colonizámos os cantos e recantos do planeta. E até escrevemos sobre isso.

No entanto, a meio do caminho começamos a ficar cansados. Já tínhamos trabalhado o suficiente para dois ou três milénios. Então a artrite instalou-se, o reumatismo começou a pesar, as costas a arquear e talvez seria melhor começar a desacelerar todo esse progresso e desenvolvimento. Então sentámo-nos e observamos o resto do mundo a continuar com o progresso. Pensamos que estávamos tão à frente na corrida que já nem víamos os outros. A nação parou e relaxou. Aproveitou e rejubilou. Vieram toneladas de ouro do Brasil para rejubilarmos mais. Começamos a construir igrejas e monumentos a torto e a direito. Mas o progresso real tinha acabado. Muita gente reclamou da falta de progresso, da ociosidade, do marasmo e da letargia. Também escrevemos sobre isso.

Os nossos doentes começaram a morrer nos corredores dos hospitais. Elegemos um ditador como o maior português de sempre. O nosso primeiro-ministro começou a vender computadores como se fossem peixe, pelo mundo fora. Mas não há problema. Desde que possamos estar sentados num banquinho numa fábrica, como abelhas numa colmeia, a girar uns parafusos ou a apertar uns botões, tudo está bem. Em Portugal, alguém pode roubar o povo, fugir para o Brasil, voltar para Felgueiras dois anos depois, ser condenado a uma pena de prisão suspensa de três anos e ainda por cima declarar que provou-se que estava inocente. E ninguém se opõe a isso.

Não façam polémicas. Não armem confusões. Só me deixem aqui sentado, a comer o meu bacalhau com natas e a ver o meu Benfica na televisão. Não me incomodem. Freud disse que os irlandeses são o único povo impérvio à psicanálise. Talvez, a verdade será que os portugueses são o único povo impérvio à mudança.

 

 

publicado por Leandro às 22:14

Juntos, ainda derrubaremos Bolonha.
diogohoffbauermdias a 26 de Maio de 2009 às 22:59

Gosto desta frase do Antunes e levo-a para o "ematejoca azul"!
"Os leitores são umas putas, amam-nos e depois deixam-nos." - António Lobo Antunes

Li o teu comentário no blogue do Diogo. Hoje já é tarde (aqui, Alemanha: 1.30), mas vou voltar para ler os teus artigos.

Boa noite!
Teresa Hoffbauer a 27 de Maio de 2009 às 00:27

O problema não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal - Jorge de Sena
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