Presunto a Monte

Novembro 17 2009

Além do pão de forma a preços módicos e da carne picada que é mesmo carne picada, todos os Pingos Doces de Portugal têm uma série de personagens que habitam esse vasto reino. Este facto é fácil de discernir, isto é, se conseguirmos a abstracção necessária para ignorar a verborreia repugnante que é a banda sonora do Pingo Doce (sim, aquela música que diz para ir ao Pingo Doce de Janeiro a Janeiro).

 

O primeiro elemento da fauna é o casal jovem. Chamemos-lhes David e Raquel. Ele tem um emprego precário a receber 500 euros por mês, por isso entrega o dinheiro na caixa como quem dá um rim. Ela já trabalhou, mas agora não, porque tem dois filhos. O mais pequeno está no colo materno imerso numa tentativa vã de agarrar um pacote de pastilhas elásticas. Este experimento, depois de falhado, é seguido de um berreiro descomunal e calamitoso que alerta todos os presentes que a vida é dor.

 

O outro membro desta bicharada é o trolha, peço perdão, empregado de construção civil. Às tantas é picheleiro, mas nunca se sabe, ambas as espécies usam bonés do PSD e t-shirts “Benfica Campeão 1994/1995”. Estes homens chegam à caixa munidos apenas com uma garrafa de cerveja de litro e meio. Entregam o dinheiro contado em moedas pequenas, e às vezes, lá lhes falta um ou dois cêntimos que a menina da caixa faz o favor de perdoar. Eu pessoalmente gosto muito de picheleiros, já dizia Bukowski, eles mantêm a merda a circular.

 

A avó desta mui nobre família também por lá anda, a navegar pelos corredores com o seu carrinho-saco, que enche com pescada congelada e um saquinho de rebuçados, já que a vida é curta. Na hora de pagamento, esta tiritante eremita conta o trocos diligentemente, e deixa a menina da caixa numa vigília de paciência infinita em que se espera que a senhora descubra que um mais um é dois.

 

Longe da caixa, perdido pelos corredores, anda o Joãozinho de sete anos. Esta criatura diabólica por lá deambula, na sua procura incessante por bolachas e gomas coloridas. A mãe e o pai da peste estão noutro corredor, já resignados com o carácter evasivo da sua descendência. Os progenitores estão juntos no corredor dos lacticínios a discutir se vai haver dinheiro que chegue até ao final do mês. O pai, a morrer por dentro, viaja mentalmente para a televisão de sua casa, onde por essa hora, começa mais uma partida do seu Sporting.

 

Por fim, ali instalados encontram-se também os estudantes do secundário. Esta trupe pseudo-revolucionária conspira, no corredor da cerveja, se a mulher da caixa pedirá o bilhete de identidade aos meninos. A compra acaba por se confirmar e os intrépidos jovens cruzam olhares insuspeitos que traduzem-se num “Conseguimos!”.

 

Eu, por mim, não sei se é a falta de sabedoria inerente à minha falta de idade que me leva a conjurar análises mirabolantes como esta. É possível que seja uma alucinação juvenil mas, acho que no que toca a Pingos Doces, devem ser todos assim em Portugal de lés a lés. A verdade é que o raio da música do Pingo Doce não me sai da cabeça. Nem tenho previsões de que alguma vez sairá.

publicado por Leandro às 22:40

O problema não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal - Jorge de Sena
mais sobre mim
Novembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
12
13
14

15
16
18
19
20
21

22
23
24
26
27
28

29
30


pesquisar
 
blogs SAPO