Presunto a Monte

Maio 26 2009

Portugal é um país de corrupção. Só não vê quem é cego ou quem não quer ver. Corrupção por cunhas, amores, família, favores e compadres. São sacos azuis, apitos dourados, e até Primeiros-Ministros não licenciados.

O português não leva nada demasiado a sério. Estamos todos presos num marasmo, aquele marasmo que infecta o nosso povo e define a vida de milhões de portugueses. Uma vida em indiferença. Trabalhar pouco, receber pouco e reclamar por mais. Chegar a casa antes do “Preço Certo em Euros”, ver o Benfica ao domingo, para depois passar a segunda-feira a reclamar da arbitragem. Sofremos o ano todo com isso.


Em Dezembro, é mês de Natal, alegria, paz e prosperidade. Chega o Ano Novo e é mais uma dose desse espírito de esperança. Lá por Fevereiro tudo volta ao normal. As rádios anunciam essa normalidade. Bom dia para aqui, bom dia para lá, o Benfica perdeu e parece que amanhã vai chover.
Em Março, voltamos ao estado habitual de crescimento. O desemprego cresce, o défice cresce, a dívida externa cresce, mas mesmo assim, a nossa economia cresce.


O nosso Estado, feliz com esse crescimento, confisca metade do dinheiro que o Zé Povinho ganhou nesse ano por causa do “imposto de renda” e da “segurança social”.

Essa “segurança social” que deduz o salário de alguém durante quarenta anos para depois pagar uma reforma de trezentos euros durante cinco. O Zé Povinho aguenta insistentemente, como é de sua natureza. Passa facturas falsas, foge aos impostos, faz greves, reclama na televisão, emigra para o estrangeiro e apoia a oposição. Tudo está mal.

Mas chega o mês de Maio e tudo muda. Lá está o Zé Povinho, persistente, estúpido e ignorante, a caminhar centenas de quilómetros para chegar a Fátima. Quer depositar o seu dinheirinho nos cofres da Igreja e quer rezar por tempos melhores. Quer que o Benfica ganhe e que o preço do pão desça. A televisão não perde a oportunidade. Na reportagem aparece os Zés Povinhos todos, em fila indiana na beira das estradas nacionais, ou em autocarros apinhados nas estradas da morte. Trocam histórias, falam com os jornalistas, comem laranjas e agradecem a Deus: podia ser pior, podiam nem sequer ter laranjas.

Sim, somos um país devoto. Acreditamos na Igreja. Essa mesma Igreja que faz catedrais de setenta milhões de euros para rezar pela falta de dinheiro, pelos refugiados do Darfur e pelas criancinhas esfomeadas de África.

Lá por Junho, já ninguém quer saber da economia. Afinal, a selecção está no Euro, e daqui a pouco setenta e sete portugueses vão competir nos Jogos Olímpicos.
Almada Negreiros, português orgulhoso, disse: “o povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades”. Zé Povinho tendo noção do peso dessa responsabilidade, correspondeu plenamente. Inventou o jeitinho português de passar a vida, com engenho e estratagemas. Afinal, há coisas que sabemos fazer bem.
Sabemos falar de futebol, reclamar da vida, gastar dinheiro e comer.

publicado por Leandro às 00:59

Brilhantemente mordaz. Espero continuação!

http://diogohoffbauermdias.blogs.sapo.pt
diogohoffbauermdias a 26 de Maio de 2009 às 21:33

O problema não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal - Jorge de Sena
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