Presunto a Monte

Setembro 20 2009

A Louraça Legítima

 

A minha mulher começou a andar de peruca e está de tal forma uma brasa que os próprios sobrinhos, quando lhes mandei uma fotografia da tia, responderam-me com "kem és tu?", pensando que era alguma gaja gira a meter-se com eles. "They should be so lucky", como diria um judeu americano. A peruca é japonesa e hi-tech e já me está a tramar a vida. Não é por me sentir culpado por cobiçar a mulher de outrem. Como sou eu o outrem, até é sexy.

São os outros que pensam, quando me vêem com ela na nova peruca, que, mal descobri que tinha um cancro, arranjei outra. Houve um cozinheiro, muito nosso amigo, que chorou quando nos viu, sentados na nossa mesa do costume, a namorar. Disse ele: "E eu que gostava tanto do Sr. Miguel!" Como é tão boa pessoa como bom cozinheiro, até faz esparregado para ela, já que a quimioterapia altera um bocado os gostos.

Mas, quando o empregado lhe pediu, para além dos carapaus, um esparregado para nós os dois, ele atirou a colher ao chão e gritou: "Eu para essa não faço esparregado! Só faço para a Sra. Maria João!"

Como quem diz: este adúltero não só deixa a mulher, mal ela adoece, como tem a lata de pedir, para as amásias, os petiscos que aliviam a doença da legítima!

Começam a tratar-me mal. Eu faço questão de dizer, a todos que passam por mim, "Esta é a minha mulher, calma!" Mas na estrada é difícil.

E ela não ajuda, porque diz sempre: "Deixa-te de fitas, querido. Tu sempre odiaste a tua mulher..."

 

Miguel Esteves Cardoso
Crónica - Público

publicado por Leandro às 23:23

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