Presunto a Monte

Junho 08 2009

É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.                            

 

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
já não encontro a mola pra adaptar-me.

Fernando Pessoa

 

 

Vou falar de futebol. Aliás vou mencioná-lo. Espero que não aconteça muitas vezes.

 

Bruno Alves “salva” Portugal. Este é o título ou a essência das notícias que relatam este último Portugal x Albânia. Mais do que as eleições europeias, cuja taxa de abstenção andou à volta de 60%, este jogo sim preocupou os portugueses. Para eles, Bruno Alves é o novo Super-Camões, o eterno D. Sebastião ou para os mais atentos, o Bloco de Esquerda do futebol português.

 

Aposto que em bares, tascos, casas, garagens, centros comerciais e espeluncas afins por esse Portugal, milhões de lusitanos estiveram na linha ténue que separa a portugueses felizes de portugueses maníaco-depressivos-misantrópicos-ateus. Todos a ver o caralho de um jogo que consiste em 22 jovens milionários a chutarem uma bola de um lado para outro, desesperados em tentar metê-la num quadrado com redes.

 

A verdade é que eu gosto de futebol como qualquer português. Não julguem esta objectivação do futebol como falta de tacto da minha pessoa. Mas a verdade é que parece que quando a Selecção Portuguesa de Futebol perde, Portugal perde. Se a Selecção tivesse perdido o jogo contra a Albânia no dia seguinte milhões de empregados, desempregados, estudantes e reformados teriam passado pelo menos a sua manhã a falar de jogadas perdidas e grandes penalidades e foras-de-jogo e faltas e Carlos Queiroses.

 

A Selecção Portuguesa de Futebol tem sido uma força a ter em conta nos últimos 10 anos. Desde 2000 tem marcado presença nas principais competições, desapontando em algumas e surpreendendo em outras. Surpreendeu no Euro 2000, desapontou no Mundial 2002, fascinou no Euro 2004, cativou no Mundial 2006 e foi satisfez no Euro 2008.

 

Se não formos ao Mundial 2010 temo que a Ministra da Saúde vai deixar de falar de vacinas para a Gripe A. Vai começar a estabelecer acordos com as farmácias para fornecer anti-depressivos genéricos. O Ministro das Finanças e o Ministro da Economia vão se tornar obsoletos, porque quando o futebol não vai bem nem vale a pena trabalhar. A Fátima Felgueiras vai voltar para o Brasil para ver se encontra condições de trabalho decentes: um campeonato nacional disputado e uma Selecção vencedora. O Ministro das Obras Públicas vai reclamar da falta de estádios de futebol neste país. Mas aposto que contra tudo e contra todos José Sócrates vai continuar com o seu discurso sobre estabilidade, rumos, direcções e governabilidade.

 

publicado por Leandro às 19:23

O problema não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal - Jorge de Sena
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