Presunto a Monte

Junho 02 2009

Às vezes tu acordas de manhã e pensas que não vais conseguir da cama. Aquele sentimento de náusea entalado na garganta que irradia pelo peito e faz pensar que isso vai ser o pior que vais-te sentir nesse dia. Tu forças-te a sair da cama, olhas para aquela garrafa de whisky que deixaste pela metade e entras na casa de banho. Olhas-te no espelho e pensa como foi possível chegares tão longe. Se há coisa grande no mundo é a distância do quarto à casa de banho.

Tu ainda não saíste. Sentas-te no teu sofá, ligas a televisão e assistes o telejornal trágico. Hoje parece que vai chover, mas tu não prestas atenção e acendes um cigarro. O cigarro da manhã, o ponto alto do teu dia, enquanto debruças sobre a ideia de sair ou não de casa.


Voltas a fumar para a casa de banho, ligas a luz do espelho e observas enquanto o fumo entra e sai da tua boca. Todas aquelas linhas que ganhaste com a idade. Ligas a água do chuveiro, e agonizas enquanto esperas que a água amarela comece a aquecer. Se ao menos pudesses passar o dia todo ali.


Sais do banho a tremer de frio e chegas na cozinha com a tua mulher a fazer café. O teu filho já sentado na mesa a tomar leite enquanto tu olhas para ele. Cabelo lambido, mochila colorida pendurada na cadeira, a olhar para a televisão. O miúdo boceja, o pai boceja: tal pai, tal filho. Eles entreolham-se na paternidade que já não é o que era.


Começas a enfiar comida pela garganta abaixo, misturada com aquele café coado de pó usado duas ou três vezes. A comida custa a descer e fica entalada na garganta, mas tu forças a sua descida com um gole de sumo fora do prazo.


Entras no teu carro e aquele cheiro a estofos e tabaco sentenceia o teu dia. Agora sabes que não podes voltar para trás. Ligas o carro e fazes a marcha trás enquanto o vizinho do lado passa a fazer jogging.


O nosso novo mundo é assim. Antes trabalhávamos porque era mandatário à nossa sobrevivência. Hoje metemo-nos em carros, enlatados em direcção de um escritório para nos afogarmos em burocracia.


Agora em excesso de velocidade na auto-estrada, tu rezas para que aquele trânsito adiante seja de um acidente com pelo menos três mortos.


Os novos homens são assim. Antes agrupavam-se para caçar, agora encaixotados e diligentemente empregados nas fábricas, nos escritórios, nas empresas, nos mercados, na indústria, no vácuo que amortece o sentimento de desamparo e choque.


Ligas o rádio que anuncia que a auto-estrada está desimpedida e um misto de alívio e desapontamento se libera.


Encontras a saída, e entras numa estrada secundária. Aceleras enquanto as árvores e as pessoas ao lado passam cada vez mais rápido. Pensas em como poderias girar aquele volante um bocadinho para a direita e iniciar uma corrida lunática desenfreada no passeio. Uma corrida de pessoas atropeladas enquanto os transeuntes sobreviventes continuariam a caminho dos seus escritórios, fábricas, empresas, mercados e indústrias.


É possível que o homem esteja a dramatizar, talvez a vida é mesmo assim.
Depois ele descobre que o que está mesmo errado é considerar isso como verdade.

 

publicado por Leandro às 21:05

Amanhã é outro dia.
Muito bom!
diogohoffbauermdias a 2 de Junho de 2009 às 23:26

Curti o nome do blog.

Slayer a 4 de Junho de 2009 às 00:03

O problema não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal - Jorge de Sena
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