Presunto a Monte

Maio 31 2009

 

Largando a política e cavalgando na direcção de prados mais verdes, virarei para os vícios que me constroem. Porque um homem com vícios pode ser tudo.

 

“Don't you drink? I notice you speak slightingly of the bottle. I have drunk since I was fifteen and few things have given me more pleasure. When you work hard all day with your head and know you must work again the next day what else can change your ideas and make them run on a different plane like whisky? When you are cold and wet what else can warm you?" - Ernest Hemingway

 

Whisky e cigarros. O primeiro queima a garganta enquanto desce lentamente. Vinícius de Moraes dizia que se pudesse ser um animal, seria uma girafa para o whisky demorar a descer. Mas devagar se vai ao longe: o whisky é traiçoeiro. Ele vai descendo mas ao fim da quarta ou quinta ou sexta dose, o caminho é para cima, para o nada que é tudo. Cerveja é alegria, vinho é libertinagem, vodka é terapia, mas whisky é prazer. Prazer de se saber quem é e do que se gosta, encontrando conforto no travo amargo e flamejante que consome a garganta. É uma bebida verdadeira, que transforma e renova, destruindo células hepáticas. Admiradores de whisky não são casuais, não bebem por beber. Eles têm um compromisso com o pesado passar das horas.

 

O whisky inspira, tira peso e suspende o tempo num misto algo confuso de bem-estar, letargia e consciência. Não é doce, nem suave. É complexo e aveludado. Causa uma desinibição consciente. Quando bem bebido e mantido numa trela curta o whisky é sublime. Seja responsável, beba com inteligência – é o slogan que devia adornar as garrafas de whisky, todas elas obras de arte intemporais. O whisky pode ser tudo – ele assenta o estômago, que nos dias que correm já é muito. Um estômago assente é meio caminho andado.

 

 

“There are people who strictly deprive themselves of each and every eatable, drinkable and smokable which has in any way acquired a shady reputation. They pay this price for health. And health is all they get for it. How strange it is. It is like paying out your whole fortune for a cow that has gone dry.” – Mark Twain

 

O cigarro é um contrapeso. Fumar é uma sinfonia, com pausas e intervalos, tão bem orquestrada pela calma instantânea que um trago dá. É um extremo: as melhores e as piores pessoas que eu conheço fumam. Uns fumam compulsivamente. Esses fumam por fumar, sem consciência. Não é um vício, é um hábito.

 

Outros fumam marcando um ritmo, bem cadenciado. Fumam porque precisam de parar, pensar e reflectir. É algo para fazer quando é preciso algo para fazer. E sim, fumar um cigarro é algo para fazer. Faz mal, eu sei e o seu cheiro agarra-se a tudo. Mas eu gosto. É um risco calculado que põe tudo em perspectiva. É uma barreira quase intransponível, uma cortina de fumo que permite ver melhor, analisar melhor.

Cada segundo que inalo o fumo é como se o tempo parasse, como se eu fosse elevado por uma grua, levitando a poucos metros da vida terrena tediosa.

 

Fumar é divino. Não são todas as pessoas que conseguem soprar nuvens da boca. Todas elas lindas e perfeitas enquanto se desfazem com o vento, em colisão com a vida em si própria.

 

Há dias em que acordar de manhã será o melhor que te vais sentir nesse dia. Álcool e tabaco são para esses dias. Os dias incertos, os dias felizes, os dias morosos e os dias que são dias, nada mais.

publicado por Leandro às 02:26

Identifico-te com o escritor Honoré de Balzac, francês que escrevia impulsionado por café durante quase vinte horas seguidas.
Disse, certa vez: ""Um vício custa mais caro que manter uma família".
diogohoffbauermdias a 31 de Maio de 2009 às 20:52

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