Presunto a Monte

Maio 29 2009

Eu não gosto do meio das coisas. Meios-termos, como carros no meio das faixas, centralismo democrático, ou qualquer actividade no meio da manhã. A Assembleia da República. Aquela senhora gorda a deambular calmamente no meio de passeios estreitos com os seus braços rechonchudos arqueados a carregar sacas de compras. “Minha senhora posso passar se faz favor?” Sem resposta. De facto posso ver que seria complicado passar. Entre os carros estacionados, a senhora e a parede não sobra muito espaço de manobra.

 

Todos aqueles dias incertos em que não sabes se deves sair de casa, se vai chover ou não ou se Manuel Alegre é comunista ou socialista. Para mim ele poderia ser anarco-sindicalista, fascista, ambientalista e todos os “istas” que quiser, desde que decida de uma vez por todas. É incrível como os "istas" são a questão que nos separa da paz e do silêncio. Sim, porque nestes tempos gloriosos que vivemos o silêncio é uma dádiva. O leitor pode pensar (e com razão) que me estou a contradizer. Afinal o silêncio é uma incerteza, é o exemplo perfeito de um meio das coisas. Não é verdade. Nestes tempos o silêncio deixou de ser indecisão e incerteza para passar a ser senso comum.

 

Face aos terabytes de gregório informativo que a imprensa portuguesa faz questão de despejar todos os dias sobre nós, eu não vejo outra solução a não ser calarmo-nos todos. Então que larguem os fogos, que incendeiem mil hectares e sacrifiquem cem porcos como forma de protesto. Preparem-se, porque vou dizer uma heresia – reinstalem a censura. Sim, pelo amor de deus, santos, anjos e Nuno Álvares Pereira, a censura. Porque nós somos um povo de brandos costumes. Nós somos aqueles que não gostamos de violência.

 

No entanto, tenho medo que isto mude. Entre os carjackings e o atentado ao pudor que são os Globos de Ouro, eu acho que o nosso cantinho chamado Portugal vai mudar. Já deixámos de falar do que interessa. O nosso país é, de acordo com vários gurus da política portuguesa, “ingovernável”. Não sei se é a nossa letargia sui generis, a nossa incapacidade de tomar de um rumo bem definido ou se simplesmente ver a Maya a apresentar um programa de televisão todos os dias acabou completamente com a minha capacidade de raciocinar. Corremos o risco de nos perder no meio de tudo e de nada.

 

Logo, reinstalem a censura. Deixemos de falar de política e de futebol. Em Portugal não se faz política. A política portuguesa é uma versão distorcida de duas peixeiras a discutir o preço das sardinhas, que somos nós. Às sardinhas, basta por um punhado de sal por cima e levar ao lume. Tostadinhas, com azeite e broa são um deleite. Aos portugueses, basta um jogo de futebol e o Cristiano Ronaldo sair com uma mulher diferente todas as semanas. Em muitas maneiras, nós somos sardinhas. Presos numa grelha, lentamente a girar enquanto óleo verte de nós, caindo sobre as brasas.

 

Somos também uma bola de pingue-pongue. Jogamos nessa partida de pingue-pongue entre o PS e o PSD. Somos nós, uma bolinha frágil, pequena e saltitante que vai para onde o acaso lhe manda, ao sabor do vento, Apitos Dourados e Freeports.

 

Estes somos nós: sardinhas, bolinhas de pingue-pongue, senhoras gordas no meio do passeio. Enquanto nós deveríamos falar menos e pensar mais. Agir mais. O silêncio é uma dádiva.

Agora tenho outro medo. Um dia ver um cartaz de um partido político a dizer: “O silêncio é uma dádiva” ou “Os portugueses são sardinhas”. Porque a julgar pelos cartazes das eleições europeias, eu não sei bem de onde eles andam a retirar inspiração.

 

Agora poderia continuar este meu ensaio filosófico com mais metáforas mirabolantes. Como a União Europeia deveria resolver de uma vez por todas a questão das quotas de pesca. Porque as sardinhas já são poucas. Está na hora de deixá-las procriar em paz e começar a comer saladas. Até porque os passeios de Portugal são estreitos. Mas não me vou esticar mais. Vou-me calar.

publicado por Leandro às 19:48

Futuro editorialista d'O Protagonista, sem dúvida.
Cáustico, realista e sem papas na língua. Adoro ler o que escreves, é a tua cara, ouvem-se as tuas tiradas na entrelinhas. Continua!
diogohoffbauermdias a 29 de Maio de 2009 às 23:39

O problema não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal - Jorge de Sena
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